Livro, para que te quero?

11 anos ago Helena Castello Branco Comentários desativados em Livro, para que te quero?

Fóruns de literatura na internet, saraus na periferia e sebos com preços reduzidos tentam promover democratização da cultura e revelam carências da educação

Por Sylvia Miguel, para Jornal da USP (Ano XXIII nº.819 de 28 de janeiro a 3 de fevereiro de 2008)

Bem-vindo ao Bookcrossing, onde 631.184 pessoas em 130 países se encontram para dividir com o mundo a paixão por livros. Essa é a chamada de abertura da página de uma comunidade da internet que se propõe a reunir “pessoas que amam livros e amam dividir”. Qualquer um pode simplesmente criar um perfil ou mesmo montar uma crossing zone (“zona oficial de troca”), que funciona como um tipo de “prateleira” em espaço público na qual é possível pegar ou deixar um livro para que outras pessoas tenham acesso à leitura gratuitamente.

Foto crédito: Sercom HRAC/USP

O destino de cada exemplar fica nas mãos do acaso. Mesmo assim é possível “seguir suas pegadas” e saber um pouco sobre a obra e seu paradeiro através de um número de identificação e, principalmente, dos comentários deixados no site pelo leitor bookcrosser. O mais viajado é escrito em alemão, já passou por 295 pessoas e tem 30 páginas só com figuras: Der seltsame Bücherfreund, de Annetta Hoffnung.

“Há exemplares que viajam o mundo. Um leitor pegou um livro na Austrália e acaba de disponibilizá-lo aqui no Brasil. A própria trajetória do livro vira uma história à parte”, diz Helena Vitória Diniz Castello Branco, gestora cultural de uma zona oficial de troca de livros do Bookcrossing que começou a funcionar num restaurante da Vila Madalena, em São Paulo.

Enquanto a comunidade virtual funciona como fórum de discussão sobre literatura em geral, o projeto começou a engatinhar no Brasil como forma de democratizar o acesso à leitura. Ex-aluna do curso de Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Helena conta que a idéia de introduzir o Bookcrossing no Brasil foi a maneira que encontrou de aplicar os conceitos aprendidos no curso.

“Incentivar a cultura implica promover valores como a cidadania, e não focar apenas o lucro ou dar uma abordagem mercadológica à cultura. Há muitos que se aproveitam dos benefícios de algumas leis apenas para ter abatimento em impostos”, diz Helena. “Acredito que muita gente não tem contato com a cultura porque um show, um CD ou um livro custam caro. Daí a idéia de promover algo gratuito, que fosse fácil de fazer e que promovesse a troca.”

E se um leitor se apropriar do livro ou mesmo vendê-lo e não deixar qualquer comentário no site? “É um risco. Há lugares onde as pessoas entregaram o livro em seções de achados e perdidos porque não conhecem o projeto. Por isso, além dos selos de identificação do Bookcrossing, coloquei outro explicando a idéia”, afirma a gestora. Para ela, ainda que a pessoa se aproprie do exemplar e não o coloque novamente em circulação, o processo já terá valido para alguma coisa – desde que o livro seja lido.

Resistência – Se a internet é um espaço democrático, o que se pode dizer de um bar? Alguns deles têm se transformado em verdadeiros pontos de encontro para saraus de literatura, música e teatro. Essas iniciativas têm proliferado especialmente na periferia de São Paulo. Na segunda-feira da semana passada, o Sarau do Binho agitou um bar na região de Campo Limpo com poesia e música (leia endereços abaixo).

Helena Castello Branco: “Há exemplares que viajam o mundo. A própria trajetória do livro vira uma história à parte”

Já o Sarau da Cooperifa tem revelado autores em publicações marginais e também por meio da Global Editora, que, entre outros alternativos, publicou O colecionador de pedras, de Sérgio Vaz. Outra iniciativa vem do Centro Educacional Unificado (CEU) Meninos, na zona sul da capital, que durante dois anos promoveu o Sarau Rap e agora planeja abrir para outras manifestações.

“Começamos o projeto pela grande quantidade de grupos de hip hop e rap existentes na região de Heliópolis. Estamos planejando um formato mais aberto a outras linguagens, como literatura, teatro e dança. A idéia é promover um intercâmbio de experiências culturais”, diz Fabiano Pedrosa, coordenador de projetos culturais do CEU Meninos.

Contra a fotocópia – Promover o acesso à leitura tem sido também o papel de livreiros de sebos. Pelo menos para aqueles que se consideram militantes culturais. Há vinte e um anos – “para ser mais preciso, desde 8 de março de 1987”- Raul Amaro Piegas abriu sua banca no prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Hoje expõe parte do estoque de 3 mil livros em frente à entrada do Restaurante Central, junto aos blocos do Conjunto Residencial da USP (Crusp).

“O que faço é uma campanha contra a fotocópia, pois nenhum livro meu custa mais que R$ 0,05 a página, enquanto uma cópia xerox sai por R$ 0,12. A fotocópia fere o direito do autor e promove a fragmentação da cultura”, defende. Morador de um sítio, conta que sua atividade é um trabalho de militância, pois não lhe “rende nada”. “Sobrevivo porque não tenho compromisso com nada nem ninguém. Tudo o que os livros me dão é a liberdade e o conhecimento”, diz.

Jornalista formado pela ECA, Silvio Diogo Lourenço dos Santos vende livros num sebo montado no saguão da FFLCH. “Considero que essa é uma função de comunicação. Presto um serviço para estudantes, professores e funcionários e, indiretamente, para a Universidade”, diz. “Os livros e a leitura são ferramentas essenciais ao desenvolvimento da percepção, da sensibilidade, da reflexão e do senso crítico, o que apenas o ensino formal não é capaz de proporcionar.” Silvio ressalta que não é contrário à fotocópia, mas acredita que depender dela fragmenta o conhecimento. “A pesquisa de um autor ou de um livro subentende autonomia, maior amplitude e profundidade do conhecimento”, defende.

O vendedor também milita do outro lado do balcão. É autor do livro de poesias Desenho do chão, que será lançado em breve pela editora Toró (informações pelo e-mail edicoestoro@yahoo.com.br). “Essa editora está ligada a um movimento de democratização do acesso à cultura na periferia de São Paulo e já lançou 11 títulos de autores alternativos a preços populares. Acho que é uma forma de o livro circular onde normalmente a cultura não seria acessada”, afirma.

Iniciativas são positivas, mas não abrangentes, diz professor

O poeta gaúcho Mario Quintana dizia que “o verdadeiro analfabeto é aquele que aprendeu a ler e não lê”. Para o professor Vitor Henrique Paro, da Faculdade de Educação da USP, a falta do hábito de leitura entre os brasileiros é mais grave do que parece, pois os potenciais leitores – “que freqüentaram escolas e são até pós-graduados- “não lêem. “É fato que grande parte da população não tem acesso a bens culturais. Porém, pior é ter acesso e não usufruir.”

Vitor Paro: “A escola deveria ser um lugar de brincadeira e prazer. Porém, é onde as pessoas acabam odiando ler e escrever”

Na visão de Paro, esse comportamento reflete uma sociedade que não exige indivíduos cultos. “Além disso, as escolas não se ocupam em educar, mas em passar informações e conhecimento. Educar implica ensinar valores, comportamentos e crenças.”

Parte do problema está no formato em que se estrutura o modelo educacional brasileiro. “A escola deveria ser um lugar de brincadeira e prazer. Porém, é onde as pessoas acabam odiando ler e escrever. O modelo escolar tem cinco séculos de atraso e está mais antenado com a Idade Média”, critica.

As políticas públicas culturais deveriam mudar esse estado de coisas, defende. “As iniciativas populares revelam justamente a falta de ação do Estado. As pessoas ou organizações não-governamentais buscam preencher essa lacuna. Essas medidas, embora positivas, são pontuais e têm efeito apenas local. Precisamos de algo mais abrangente.”

Se a ação governamental revela a direção das políticas públicas, por que não criar a obrigatoriedade de salas de leitura em locais públicos, como é o caso das áreas reservadas a fumantes? – pergunta o professor. “Salas de consultório médico ou outros locais públicos onde há televisores em volume altíssimo que atrapalham a leitura das pessoas constituem uma ditadura. O empresário de visão deveria dar mais importância para essa realidade.”

Sarau do Binho

Às segundas-feiras, às 20h30. Rua Avelino Lemos Jr., 60, Campo Limpo. Fones (11) 5844-6521 e 5844-4532.

Sarau da Cooperifa

Às quartas-feiras, às 20h. Bar do Zé Batidão. Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Chácara Santana. Fone (11) 5891-7403.

CEU Meninos

Rua Barbinos, 111, São João Climaco. Fones (11) 6945-2552 e 6945-2559.

Sebo do Raul

Espaço de convivência do Crusp, na Cidade Universitária.

Sebo do Silvio

Espaço de convivência do prédio de História, na FFLCH, na Cidade Universitária.

Zona Oficial de Troca de Livros do Bookcrossing

Central das Artes. Rua Apinagés, 1081. Fone (11) 3865-4165. Na internet: www.bookcrossing.com.

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